ouro de tolo
o avião voa em círculos, estou tão perto da casa dos meus pais que tenho vontade de descer ali mesmo, pular e terminar o caminho andando, quando começamos a voltar para a ilha, onde vivo, sinto meu coração derreter ainda mais, acho que dessa vez nem toda a linha vermelha do mundo vai conseguir costurar meus pedaços. quando meu irmão me ligou, horas antes, eu sabia exatamente o que ele ia me dizer.
o luto tem sido como derrubar um pote de glitter durante o carnaval, está em tudo o que vejo, sinto e penso.
os dias de outono vem e o calor começa a diminuir. quando me sento no sofá e olho pros gatos na mesinha penso em como meu pai teria resmungado e dito que eles “são até meio bonitos”. ele fez essa mesinha pra mim, quando eu reclamei que não achava uma mesa exatamente do jeito que eu queria.
eu poderia sentar e passar o dia contando nossas histórias. mas elas ainda são muito minhas. o que quero é recosturar cada uma delas nos fios da minha memoria para que nunca se percam.
ainda não sei navegar pela vida sem meu pai. e está tudo bem. gostaria que ele soubesse que está tudo bem. porque a vida a ser vivida ainda está aqui, ainda tomo chimarrão de manhã, nos dias de céu azul vou pedalando para o trabalho, ligo pra minha mãe e passo muito tempo fofocando, danço na minha sala, saio pra beber cerveja na sexta a noite.
mas o glitter está em tudo, em todo canto, em todo momento. sempre vai estar. porque muito do que sou vem das vivencias que tive com ele.








meu pai era um dos grandes fãs do raul, e a musica do dia é a sua favorita:

